domingo, 1 de julho de 2007

CARTA DE REPÚDIO

Segundo Paulo Freire, o movimento libertário, deve surgir e partir dos próprios oprimidos, e a pedagogia decorrente será " aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele, enquanto homens ou povos, na luta incessante de recuperação de sua humanidade".
Vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão, mas, que se disponha a transformar essa realidade; trata-se de um trabalho de conscientização e politização. Portanto, torna-se evidente que um professor não deva deter-se, unicamente, a técnica mas, sobretudo, a uma participação política efetiva que garanta-lhe meios para uma formação social mais humantirária, mais inclusiva.

Nós, professores da área suburbana desta cidade, perdidos entre os sentimentos de perplexidade, tristeza e indignação, por parte de nosso sindicato, utilizamos esta carta para demonstrar que negamos esta proposta político-partidária imposta e vilmente aceita por nosso sindicato, excluindo, rompendo-se e negando-se a assumir a função para qual foi eleito: defender os interesses da categoria. Subjugando-nos, alimentou esta relação de poder que, em nenhum momento, satisfez os anseios da maioria ali presente.

Obviamente, compreendemos que a divergência torna-se necessária para firmar o engrandecimento social, contudo a omissão e as falácias jamais contribuirão para construção de uma categoria mais coesa e consciente. Afinal, “a prática educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decência e de pureza. Uma crítica permanente aos desvios fáceis com que somos tentados, às vezes ou quase sempre, a deixar as dificuldades que os caminhos verdadeiros podem nos colocar” (Paulo Freire) .

Compreendemos que as pessoas são livres para escolher o caminho partidário que lhe convém, mas disponibilizar-se em defender os interesses de uma classe, lutar em prol de um grupo maior e honrar este compromisso até o final é ético, é moral, é decente. E entendemos como ética e moral um compromisso firmado entre sujeitos que, mesmo tendo idéias divergentes, buscam justiça e possuem os mesmos anseios.

Lamentamos que esta ação tenha sido cometida por aqueles em quem acreditávamos estar ao nosso lado, defendendo nossos interesses e que, de uma forma ou de outra, nos encaminhou para o esvaziamento, para o rompimento de uma relação até então, respeitosa e sincera. Talvez a “cegueira” do neoliberalismo e do capital tenha já embriagado alguns, mas para tantos outros a educação ainda é o melhor caminho para o resgate, a justiça e a dignidade.

A partir deste momento, talvez algo ainda insista em brilhar, buscar, acreditar em nossas escolhas, mas certamente estas não serão as mesmas. “Mulheres e homens, seres histórico-sociais, nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso, nos fizemos seres éticos. Só somos porque estamos sendo. Estar sendo é a condição, entre nós, para ser. Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe ou pior, fora da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador.”

Possuídos ainda pelo sentimento de coletividade, mesmo abandonados por alguns, comunicamos que por tudo que vivenciamos nestes 55 dias em greve , estaremos de luto no primeiro dia de retorno.